domingo, 19 de abril de 2015

Obrigada, Deus.


   Não sou mais como antes...
Não sou mais como ontem ou anteontem.
Eu sempre fui uma garotinha melancólica e solitária, é verdade. Mas, ao menos, eu tinha vontade de viver. E, hoje perco essa vontade a cada dia porque, todas as pessoas que conheci, todas as pessoas que permiti que entrassem em minha vida, levaram um pedaço de mim e só deixaram dor, rancor e desamor. Elas lutaram para me conquistar e eu lutei com todas as minhas forças para não me entregar a elas... Mas elas sempre foram mais fortes que eu e, como sempre, eu perdi! O que acontece quando elas ganham? Riem de mim e me deixam em cacos no chão. Eu junto esses cacos e os colo lentamente... Mas sabe, nunca fica igual. Sempre ficam as marcas que me lembram que eu caí...
    E todos me acham fraca demais e me dizem para parar de agir como uma criança mimada. Levantar-me e seguir em frente. Quem dera fosse fácil assim! Não é! Nunca é! E cada vez fica pior.
    A morte não é uma opção, então, eu só queria deixar de sentir. Só queria me importar menos. Mas não se isso é possível!
    Meus "amigos" - se é que posso chamá-los assim - não podem fazer nada por mim. E, às vezes, eu acho que, mesmo que pudessem, eu não permitiria porque não quero me apegar a eles e ter de chorar por eles quando eles me deixarem.
    Houve uma época em que eu tinha tanta atenção voltada a mim que surtei. Simplesmente não aguentei mais tanta gente dependendo de mim, chorando por mim (eu achava isso tão engraçado, mas veja como o jogo virou) e me desejando.
       Eu me sentia importante demais e só queria ser normal. Só queria não ser a garota mais bonita da sala ou a nerd que os professores sempre citavam como exemplo, ou a filha perfeita ou a melhor amiga ou a babá que as crianças adoravam. Eu queria lutar pelas coisas e consegui-las como qualquer pessoa. Eu sei que isso soa idiota, mas era o que eu, uma garota de 12 anos desejava. Eu era só uma criança! Não queria trocar minhas bonecas por namorados nem o conforto de meu lar por uma aventura, como as outras garotas que se completavam 13 e 14 anos faziam. Então, eu implorei a Deus que queria ficar sozinha. Sem tanta atenção e sem amigos. Sem nada. Só com minha família.
        No momento em que fazia essa prece, senti uma voz em meu interior, perguntar se eu tinha certeza do que queria, se aquilo realmente me faria bem. Eu ignorei aquela vozinha metida a moralista e disse que tinha certeza, e de que não importava o quanto eu implorasse depois, que Deus deveria me deixar sozinha, sem amores, sem amigos, sem nada. Porque tudo o que eu desejava era a paz! Porque eu não queria amar alguém e perdê-lo como minha mãe perdeu meu pai quando ele morreu; porque eu não queria me tornar uma adulta chata e responsável que só pensava em trabalhar e viver sua vidinha medíocre. Eu queria mais que aquilo! Eu merecia mais que aquilo. Afinal, ninguém merece terminar como uma bruxa velha e amargurada que se vinga de tudo e todos só porque sua vida foi um lixo! Eu queria ser diferente da minha mãe, da minha avó e das minhas tias.
        O tempo passou depressa, e eu me esqueci do que havia pedido a Deus. No entanto, ele não se esqueceu. E assim como eu pedi a ele, ele me afastou de tudo e de todos. A solidão me enlouqueceu e eu passei tanto tempo trancada num quarto com apenas música, bonecas e livros que me esqueci de como era bom segurar a mão de alguém, ter alguém para rir de suas piadas ou mesmo alguém para te abraçar. Eu idealizava um mundo perfeito onde eu fosse amada, respeitada e compreendida. Isso causou minha ruína e despertou coisas que nunca deveriam ter sido despertadas. O bom disso, é que, de certa forma, eu tenho a doce ilusão de que não estou sozinha. O lado ruim é que quando eu abro meus olhos, meu mundo volta a ser descolorido.
    E como se não fosse o bastante, eu consegui ferrar mesmo o meu mundo de fantasias e vivo em conflito interior.
     Eu queria fugir, mas não se pode fugir de si mesmo. Não se pode ser outra pessoa, mesmo querendo.
    Se eu pudesse voltar no tempo, eu teria mudado meu desejo; teria pedido a Deus para aprender a ser mais sociável e lidar com todas as pessoas que tanto me amavam.
     Dizem que não se pode viver de passado, mas o que fazer quando tudo o que fizemos ontem reflete hoje e colhemos o que plantamos? Acha que é fazer uma análise profunda, ver onde se errou e não cometer os mesmos erros. Tá bom. Eu sei que ainda vou me machucar muito tentando colher rosas sem me ferir com seus espinhos, mas vou continuar tentando, até meu último suspiro.

1 comentários:

Isa Akazawa disse...

Confesso que chorei, pois me identifiquei muito com esse texto.
Sempre fui muito solitária, mas a solidão não me incomoda, tenho o meu mundinho particular, onde imagino estar em um campo de flores ao lado dos deuses.
E tenho também minha querida ninfa para me fazer companhia, mas algo que me deixa feliz mesmo com minha solidão são seus blogs.
Não ligo de não ter amigos, desde que eu tenha minha familia, nada mais importa.

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